Sabe lá como a vida é... O que é certo... O que é verdade... O que é falso... O que é pra ser e o que é pra não ser...
Numa noite inesquecível, coloquei o Shan e sua irmãzinha dourada em uma pequena caixa de papelão, no banco do carona. Despedi-me apaixonadamente de minha namorada, pois ficaria um longo mês sem vê-la, justamente por causa do fator "filhotice" do Shan. Foi ela quem conseguiu "dobrar" o meu amigo Rafael, com quem divido o apartamento no Rio, para que ele aceitasse a chegada do filhote Shan. Quanta ansiedade... Eu fiquei por um fio de não poder levá-lo comigo...
Estávamos na estrada, numa Dutra anoitecida e tranquila. Andei os primeiros quilômetros até fazer a primeira parada, na famosa Casa do Mamão. Quando parei o carro e acendi sua luz interna, deparei-me com meu primeiro desafio: um vômito, bem em cima do banco e do freio de mão. Não sabia de quem era, se do Shan ou de sua irmãzinha chorona (sim, ela ficou chorando o início da viagem toda, até dormir), mas não importava. Eu parara para descansar e beber uma água, e agora, para limpar vômito de cachorro. Fechei a porta e acionei o alarme do meu carro. Estava tomando calmamente um delicioso suco de uva, quando ouvi o alarme do meu carro soar. Mas, como? Fui correndo, e vi os dois pequenos boxers se mexendo na caixa. "O sensor de movimento acionou por causa deles... Hahaha!", pensei. Bem, eu ainda tinha um lanche pra terminar, então decidi não mais acionar o alarme do carro, e ficar de olho para ver se algum raptor de filhotinhos não passaria por perto. E qual não foi a minha surpresa quando, mais uma vez, o barulho do alarme se fez perceptível para todos na casa de lanches. Descobri, então, que o meu carro não aceitava ficar fechado e sem alarme ligado. A única opção era deixar uma porta quase fechada, e aguardar o lanche acabar, de olho num carro aberto e com dois cachorrinhos dentro.
A viagem prosseguiu muito bem, com os dois fazendo xixi na caixa, dormindo, acordando e dormindo. Cheguei ao meu prédio, no belo e praieiro bairro do Recreio dos Bandeirantes, e repeti o mesmo procedimento da parada na Dutra. E lá estava, mais uma vez, a maçaroca marrom de vômito, partindo da boca do Shan, no meu banco. É que ele havia ficado olhando por muito tempo pela janela durante o percurso... O Shan é um cachorro extremamente curioso e, por que não dizer, explorador. Eu notei essa sua característica quando ele ainda andava entre seus irmãos, no lar dos Flamarion. Enquanto seus irmãos corriam para chupar as tetas da Lua, o Shan cheirava a sala, as cadeiras, o sofá, e era, muitas vezes, o último a seguir para o leite materno ou para a ração. "Gostei! Tem um jeito aventureiro. Vai gostar muito de viajar!". Comprovei o “jeito quase geólogo de ser” do Shan mais tarde, quando, num passeio até a casa do meu grande amigo Marcelo, em Jacarepaguá, onde deixaria o Shan por dois dias (pois eu iria viajar a trabalho), ele me lamberia umas três vezes, provavelmente pensando que iríamos pegar a estrada rumo à Volta Redonda novamente. Eu cheguei a ouvir, antes de levá-lo para o meu apartamento, que o Shan era "lerdo". Muito interessante... Até nisso ele se parece comigo. A pessoa "lerda" é costumeiramente colocada em foco, devido a ser um tipo meio "avoado" ou que possui um mundinho próprio. O "lerdo" não está atento ao que ocorre ao seu redor. Mas o lerdo não é um desatento. Ele é extremamente atento, a outras coisas, talvez até mais importantes. E o Shan era desse jeito...
Rafael atônito: "tem um cachorro lá em casa! tem um CACHORRO lá em CASA!"
ResponderExcluirhauahuahuahu
Vi um filme certa vez que me lembra muito esse cachorro. Krull - O destruidor. Ele gostou muito da minha casa, na verdade ele nem queria ir embora. Ele comeu planta, aliviou a bexiga na casa toda, defecou, correu, latiu e mordeu. Mostrou seu lado psicótico de ser. Enfim quando cheguei de viagem, expulsei ele e o dono de casa e para piorar não os fiz se despedir da Priscilla e tomei um puxão de oreia
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