Domingão de sol... Dia de jogo do Brasil na Copa... E dia de Shan o dia inteiro no apartamento dos meus pais...A galera foi lá pra jogar PS2 na televisão gigante do meu pai, e, depois, assistir ao jogo do Brasil contra a Costa do Marfim. Tive que deixar o Shan na varanda, praticamente o dia todo. E ele não parou nenhum minuto. Mijava a toda hora, comia as plantas da minha mãe, subia no sofá dela... Eu não conseguia controlá-lo, e até desisti de limpar aquela sujeira constante. Mas, numa hora, ele se superou. Quando retornei uma vez à varanda, lá estava o vaso de minha mãe rodeado por terra, que o próprio Shan havia ajudado a tirar. Ele cavava alucinadamente o vaso, colocando quase dois quilos de terra no chão. Apesar dele ter acabado de tomar o seu banho semanal, naquela manhã do jogo, estava com terra até às orelhas... Ahhh, quando vi que não tinha jeito, e que já havia feito isso pela segunda vez, comecei a brincar de jogar a terra em cima dele. Ele estava todo sujo mesmo...O jogo foi bom, o escrete canarinho venceu, e o Shan, agora mais calmo, dormia em frente a um aparelho que tinha soltado três urros de gol. A galera foi embora, e eu fiquei, pra limpar a sujeirada mais impressionante que o boxer havia feito até aquele dia. Eu limpava um pouco e descansava um tanto mais, assistindo aos comentários na TV daquele dia de Copa na África. Tudo arrumado e cheiroso, era hora de voltar pra casa. Eu já estava cansado de levar o Shan no colo, afinal, ele já tinha mais de 3 meses de idade, e pesava em torno de 10 kg, então decidi que ele iria até o portão do prédio pelo chão (apesar do prédio dos meus pais não aceitarem cães). Tranquei a porta do apartamento e comecei a descer o lance único de escada. Para a minha surpresa, o Shan não desceu comigo. Ficou parado, ouvindo o chamado que ele já estava acostumado: "Shaaan... Assobio, assobio, assobio!" E nada. Desci todo o lance de escada, chamando-o, sem ele me ver. Nada. Subi de volta, e ele lá, parado, olhando para a escada maldita (era o que ele devia pensar). Peguei as suas patas dianteiras, e puxei ele até o primeiro degrau. E assim foi, por uns quatro degraus. Larguei-o, desci mais uns quatro degraus e chamei-o pelo nome... Só que ele começou a subir de volta os degraus que acabara de "vencer"! Ele tremia, com medo da escada. Peguei ele de novo pelas patas dianteiras, e recomecei a descida do primeiro meio-lance da escada no estilo "patas da frente, patas de trás... Patas da frente, patas de trás...". Ao fim, lá estava o Shan, na plataforma da escada, com seus primeiros oito a nove degraus vencidos com uma pequena ajuda minha. Eu desci o restante da escada e chamei-o pelo nome. Que maravilha!! Ele prontamente desceu o restante dos degraus sozinho, sem nenhuma ajuda! Que mulekinho ixperto! Aprende rápido... Assim como a Costa do Marfim...
Sabe lá como a vida é... O que é certo... O que é verdade... O que é falso... O que é pra ser e o que é pra não ser...Numa noite inesquecível, coloquei o Shan e sua irmãzinha dourada em uma pequena caixa de papelão, no banco do carona. Despedi-me apaixonadamente de minha namorada, pois ficaria um longo mês sem vê-la, justamente por causa do fator "filhotice" do Shan. Foi ela quem conseguiu "dobrar" o meu amigo Rafael, com quem divido o apartamento no Rio, para que ele aceitasse a chegada do filhote Shan. Quanta ansiedade... Eu fiquei por um fio de não poder levá-lo comigo...Estávamos na estrada, numa Dutra anoitecida e tranquila. Andei os primeiros quilômetros até fazer a primeira parada, na famosa Casa do Mamão. Quando parei o carro e acendi sua luz interna, deparei-me com meu primeiro desafio: um vômito, bem em cima do banco e do freio de mão. Não sabia de quem era, se do Shan ou de sua irmãzinha chorona (sim, ela ficou chorando o início da viagem toda, até dormir), mas não importava. Eu parara para descansar e beber uma água, e agora, para limpar vômito de cachorro. Fechei a porta e acionei o alarme do meu carro. Estava tomando calmamente um delicioso suco de uva, quando ouvi o alarme do meu carro soar. Mas, como? Fui correndo, e vi os dois pequenos boxers se mexendo na caixa. "O sensor de movimento acionou por causa deles... Hahaha!", pensei. Bem, eu ainda tinha um lanche pra terminar, então decidi não mais acionar o alarme do carro, e ficar de olho para ver se algum raptor de filhotinhos não passaria por perto. E qual não foi a minha surpresa quando, mais uma vez, o barulho do alarme se fez perceptível para todos na casa de lanches. Descobri, então, que o meu carro não aceitava ficar fechado e sem alarme ligado. A única opção era deixar uma porta quase fechada, e aguardar o lanche acabar, de olho num carro aberto e com dois cachorrinhos dentro.A viagem prosseguiu muito bem, com os dois fazendo xixi na caixa, dormindo, acordando e dormindo. Cheguei ao meu prédio, no belo e praieiro bairro do Recreio dos Bandeirantes, e repeti o mesmo procedimento da parada na Dutra. E lá estava, mais uma vez, a maçaroca marrom de vômito, partindo da boca do Shan, no meu banco. É que ele havia ficado olhando por muito tempo pela janela durante o percurso... O Shan é um cachorro extremamente curioso e, por que não dizer, explorador. Eu notei essa sua característica quando ele ainda andava entre seus irmãos, no lar dos Flamarion. Enquanto seus irmãos corriam para chupar as tetas da Lua, o Shan cheirava a sala, as cadeiras, o sofá, e era, muitas vezes, o último a seguir para o leite materno ou para a ração. "Gostei! Tem um jeito aventureiro. Vai gostar muito de viajar!". Comprovei o “jeito quase geólogo de ser” do Shan mais tarde, quando, num passeio até a casa do meu grande amigo Marcelo, em Jacarepaguá, onde deixaria o Shan por dois dias (pois eu iria viajar a trabalho), ele me lamberia umas três vezes, provavelmente pensando que iríamos pegar a estrada rumo à Volta Redonda novamente. Eu cheguei a ouvir, antes de levá-lo para o meu apartamento, que o Shan era "lerdo". Muito interessante... Até nisso ele se parece comigo. A pessoa "lerda" é costumeiramente colocada em foco, devido a ser um tipo meio "avoado" ou que possui um mundinho próprio. O "lerdo" não está atento ao que ocorre ao seu redor. Mas o lerdo não é um desatento. Ele é extremamente atento, a outras coisas, talvez até mais importantes. E o Shan era desse jeito...
Era uma noite quente em Volta Redonda, na casa dos meus grandes amigos Pedro e Pablo e da família Flamarion. Eu havia praticamente assistido ao nascimento da primeira ninhada da cadela Lua, uma linda boxer que toma conta da casa e de todos. As indas e vindas à Volta Redonda para visitar a minha namorada me deram a oportunidade de ver o crescimento dos sete filhotinhos que sobreviveram. Eu estava no sofá, vendo TV e conversando com o Pedro, quando ele falou: "Cara, ter um cachorro é muito bom! É companheiro para a sua vida!". Aquilo me soou como uma rara novidade. Tudo bem que todo mundo diz a mesma coisa, só que, dessa vez, foi totalmente diferente. Era como se ele estivesse me fazendo um convite, sem ele saber. A frase me tocou como se fosse um sino ou uma lâmpada acendendo em minha mente. "Por que não??", eu me perguntei na hora. Em segundos, eu havia tomado uma decisão que daria novos rumos em minha vida. Ter um companheiro canino... Era isso que eu precisava! Claro! Um companheiro de viagens de estrada e de caminhadas pela praia, duas paixões pessoais minhas... Uma responsabilidade que teria de arcar, pois, por se tratar de um filhote de boxer, uma raça atlética e que gosta muito de exercícios, eu teria que planejar meu dia para passear com ele pelo menos duas vezes por dia. Isso me faria levantar mais cedo, me disciplinaria os horários...Noutro dia, quando os filhotes tinham quase 2 meses de idade, comecei a pensar se gostaria de ter um macho ou uma fêmea. Perguntei ao Pedro qual sexo é o menos problemático e mais companheiro. E ele foi incisivo: "Um macho, com certeza!". Eu sabia que havia um "quase albino" na ninhada que era macho. Perguntei: "Tem outro macho?", e os irmãos Flamarion me direcionaram ao pequeno boxer, que mais tarde, se tornaria o SHAN.Uma semana depois, voltei à casa dos Flamarion, simplesmente para dar a notícia que eu levaria um dos filhotes para o Rio de Janeiro. A escolha do nome foi bem fácil. Culpa da minha namorada, que acabou gerando a oportunidade de me fazer pesquisar o significado da palavra "shan". "Montanha", "monte" ou "cadeia de montanhas". Impressionante! A maior paixão da minha vida, que me levou à profissão que tenho hoje, que me levou a conhecer os cumes de dois continentes, iria dar nome ao meu companheiro de aventuras. Enquanto nós dizemos "Monte Everest", os chineses diriam "Everest Shan". Perfeito! Só faltava eu esperar o Shan desmamar, para levá-lo à sua nova casa...